A outra face do Rappi, a start-up colombiana mais bem sucedida da América Latina

<p>O celular de Ramiro Cayola continuou recebendo notificações de novos pedidos após ser atingido em sua bicicleta por um caminhão que o matou imediatamente, em 12 de abril em Buenos Aires, exibindo a outra face do Rappi, a start-up colombiana mais bem sucedida da América Latina.</p><p>O boliviano de 20 anos levava em suas costas uma caixa da empresa colombiana de entregas Rappi, que teve um crescimento espetacular na América do Sul em seus poucos anos de vida.</p><p>Uma maré de ciclistas e motociclistas laranja, a cor que identifica a plataforma, já circula pelas ruas de sete países – Argentina, Brasil, Chile, México, Uruguai, Peru e Colômbia – e 50 cidades da região.</p><p>A morte do jovem migrante alimentou o crescente mal-estar dos milhares de empregados destes aplicativos de entrega a domicílio, como Rappi, Glovo, Pedidos Ya e Uber Eats, que denunciaram a falta de direitos trabalhistas básicos e dizem estar muito vulneráveis a se tornar vítimas de acidentes nas ruas.</p><p>- “Seja seu próprio chefe” -</p><p>Em vários países se ouviram queixas sobre a chamada “Amazon da Colômbia” por parte dos entregadores, os “rappitenderos”.</p><p>Rappi evita qualificá-los como funcionários. São “pessoas independentes” que buscam “rendimentos extras para tornar realidade seus projetos pessoais e profissionais”, disse à AFP uma porta-voz da empresa, cujo lema é “Seja seu próprio chefe”.</p><p>Mas aos olhos de alguns deles, esta “independência” esconde uma precariedade trabalhista alarmante.</p><p>”Para Rappi não somos empregados, não assinamos nenhum tipo de contrato. Não temos benefícios, não temos plano de saúde, nem previdência. Nada”, afirma Kevin Ardila, porta-voz dos “rappitenderos” na Colômbia, que realizam tarefas como entrega de comida ou medicamentos a domicílio, pagamento de boletos ou compras no supermercado.</p><p>Os entregadores têm um seguro que os cobre apenas enquanto realizam entregas e um seguro de responsabilidade ante terceiros.</p><p>E como as demais empresas do setor, com exceção da uruguaia PedidosYa, a Rappi não lhes fornece capacete, luzes ou roupas refletivas.</p><p>Buenos Aires foi uma das primeiras cidades a abordar este problema. Dias antes da morte de Ramiro Cayola, um juiz ordenou suspender estes serviços de entrega a domicílio até que as empresas cumprissem as normas de segurança para os trabalhadores que se deslocam em bicicleta.</p><p>A decisão se baseou em um informe policial que apresentou cifras alarmantes: 77% dos trabalhadores destes serviços se deslocam com mochila (em forma de caixa) nas costas, em vez de levá-la presa na bicicleta, 67% não usam capacete e 70% não contam com seguro.</p><p>- Alívio e pesadelo de imigrantes -</p><p>Estudantes, jovens profissionais, pessoas que buscam rendimentos extras e, sobretudo, liberdade. Esse é o perfil dos “rappitenderos”, segundo a empresa. “Não há relação de subordinação, não cumprem horário, não têm exclusividade”, diz a Rappi.</p><p>De acordo com uma reportagem do jornalista chileno Sebastián Palma para a revista El Sábado, o perfil que encontrou entre os entregadores é bem diferente do que a companhia descreve.</p><p>”Há muitos venezuelanos, são a maioria”, detalha Palma. A empresa não fornece, no entanto, cifras sobre a porcentagem de entregadores imigrantes.</p><p>Para um imigrante, o custo de trabalhar para a companhia pode ser alto, visto que “tem que investir em uma bicicleta, em roupa esportiva, em um celular e em um plano de dados”, além da mochila em que transportam a comida, explica Palma.</p><p>Alguns, por outro lado, valorizam a flexibilidade que encontram na companhia. “Estou bem, estou desempregado e não tive nenhum problema. Comecei há pouco e o horário me permite fazer outras coisas”, afirma Álvaro, um uruguaio de 50 anos que entrega pedidos em Montevidéu.</p><p>- “Exploração encoberta” -</p><p>Na Colômbia, a empresa fundada em 2015 causa orgulho mas também preocupação. Em abril, a Rappi recebeu um investimento de um bilhão de dólares do fundo Softbank e seu valor ultrapassou 3 bilhões de dólares. É a maior aposta que já foi feita por um empreendimento latino-americano.</p><p>”A popularidade destas aplicações na região se baseia na convergência de vários fatores, entre os que se incluem a desigualdade econômica, uma infraestrutura de transporte deficiente e tecnologia melhorada”, explicou à AFP Jonathan Moed, colaborador da Forbes e especialista em start-ups.</p><p>Mas o Ministério do Trabalho da Colômbia tem o tema na mira. “É preciso buscar mecanismos para proteger os entregadores” ante riscos e acidentes e depois “estender a proteção aos temas de saúde e à previdência social”, afirma à AFP o vice-ministro desta pasta, Carlos Alberto Baena.</p><p>No Chile, deputados do Revolución Democrática (oposição) realizaram uma pesquisa com mais de 900 trabalhadores de aplicativos de entrega de serviços e plataformas digitais e os resultados apontam uma “exploração encoberta” que deve ser regularizada com urgência.</p><p> * AFP </p><!– contentFrom:cms –>
Fonte: Diário Catarinense