Lolla Angelucci, a ilustradora que faz da alopecia uma ode à autoestima

Alopecia areata é uma doença que atinge principalmente o crescimento e provoca a queda dos pêlos no corpo. A manifestação mais comum é nos cabelos, mas também há portadores de alopecia que perdem seus cílios, pêlos corporais, etc. A maioria das pessoas que têm a doença desenvolvem-na ao longo da vida, por motivos diversos. Entre os portadores, há ainda aqueles mais raros: os que já têm a alopecia desde o nascimento, que são casos raros. Este é o caso de Lolla Angelucci, ilustradora de 38 anos que convive desde sempre com a doença. Há 2 anos ela criou o projeto Sereias Carecas, para que outras mulheres como ela se sintam representadas em manifestações artísticas e saibam que, sim, são lindas.

Eu venho de uma época que aceitação não estava na moda.

A ilustradora de 38 anos critou o projeto "Sereias Carecas".

Advogada por formação, Lolla conta que exerceu a profissão por 15 anos, até redescobrir no desenho a sua paixão. Até chegar nas Sereias Carecas, seu carro-chefe como ilustradora, ela passou por um longo processo de aceitação daquela característica nela mesmo. “As revistas femininas tinham foto de certo e errado em relação à figura da mulher. Eu venho de uma época que aceitação não estava na moda. Tudo que era fora do padrão, era contestado”, conta a ilustradora ao HuffPost Brasil.

A mãe de Lolla usava todos os métodos que descobria para tentar cessar a queda de cabelo da filha, mas em vão. Os médicos já tinham avisado: não vai ter jeito, no início da sua fase adulta eles vão cair por completo. E foi o que aconteceu. Já na faculdade de direito, ela se arrumava para uma festa do estágio quando chorou, sozinha no banheiro, pela primeira vez por ser como era. Naquela época, final da década de 1990, os cabelos ainda estavam falhados, e a imagem refletida no espelho era difícil.

“Hoje eu penso que ficou tudo bem, mas desse período em diante chorei muito no banheiro. Eu me emociono ao lembrar porque para mim era uma coisa muito potente, ainda é uma lembrança muito potente. Eu não esqueço isso”, conta emocionada. Natural de São Carlos, interior de São Paulo, ela conta que era na sua cidade-natal que sentia mais pressionada a usar perucas ou lenços para disfarçar seus cabelos já ralos e as falhas provocadas pela alopecia. No ir-e-vir da vida, quando teve que retornar à cidade para trabalhar, calhou de trabalhar com pessoas que não acreditavam que a doença de Lolla não era câncer.

A maioria das pessoas tinha um discurso parecido com ‘você é muito bonita para uma mulher careca’.

Advogada por formação, Lolla conta que exerceu a profissão por 15 anos, até redescobrir no desenho a sua paixão.

“Até hoje, as pessoas não acreditam muito quando eu falo que não tenho câncer. Naquela época, iam perguntar para a minha chefe, que contava para a minha mãe, que já havia trabalhado no mesmo lugar. Minha mãe dizia que eu não tinha pena de fazer a minha chefe passar por aquilo, mas a culpa não era minha. Eu demorei muitos anos para entender que ninguém tinha nada a ver com isso. Sempre achei que não fazia sentido eu viver a minha vida e alguém vir e apontar pra mim”, afirma.

O principal ponto de partida para retomar toda essa autoconfiança foi um namorado que teve. Depois de usar muitos lenços, que faziam parte da rotina, Lolla apostou em sair um dia com a careca à mostra, e ouviu a frase que seria uma reviravolta no seu coração. “Ele dizia que me achava muito mais bonita quando eu estava lidando com o que me incomodava. Essa foi a chave, foi o momento principal de entender isso. Depois meu cabelo caiu, voltou, mas eu já sabia como lidar melhor”, relembra, e explica: portadores de alopecia não ficam totalmente carecas, alguns lidam com o crescimento esporádico de alguns fios.

Lolla explica que a maior dificuldade foi a solidão do processo, desde o início da vida adulta até hoje: “Eu tive esse namorado que me apoiou, mas maioria das pessoas tinha um discurso parecido com ‘você é muito bonita para uma mulher careca'”. Além de solitário, o processo é invasivo por parte de outras pessoas. A maioria aborda Lolla perguntando se é câncer, e tratam, diz ela, a pessoa careca como alguém digna de pena. “Eu estou na rua e as pessoas vêm me perguntar se passei protetor solar, no Carnaval um cara desconhecido quis ir na farmácia comprar protetor solar pra mim. O que as pessoas pensam, não sei”, conta contrariada.

Até hoje, as pessoas não acreditam muito quando eu falo que não tenho câncer.

Diante de todos esses relatos e vivências, a ilustradora percebeu que era hora de ajudar também outras mulheres que passam pelas mesmas situações, e que ainda não aprenderam a lidar. A mulher que não imaginava, há cerca de dez anos, que seu desenho fosse “virar grande coisa”, hoje ilumina com seus pincéis, cores e sorrisos solares como sua personalidade a vida de milhares de pessoas, principalmente por meio do Instagram.

“Acho que um dos motivos para ser tão difícil se aceitar e se ver bonita careca é que a gente não se vê em lugar nenhum. Você só vê pessoas carecas associadas ao câncer, como uma pessoa coitada que ficou doente e perdeu o cabelo. Acho que faltava personagens que eram carecas porque eram, simplesmente. E eu não preciso explicar porque a sereia que eu pinto não tem cabelo: ela não tem cabelo e é linda. Comecei a desenhar as sereias carecas nisso, de começar a fazer esse exercício de entender a falta de representatividade”, explica. A figura das sereias, completa, é porque sempre admirou a beleza dos seres encantados.

Acho que um dos motivos para ser tão difícil se aceitar e se ver bonita careca é que a gente não se vê em lugar nenhum.

Lolla reconhece que o projeto e a troca com outras mulheres carecas também influenciou a sua própria vida.

Hoje, Lolla brinca que é “nanoinfluencer digital”, porque fala para outras mulheres carecas, que encontram na arte e nos textos dela um alento até então desconhecidos. “Uma vez encontrei uma senhora de 54 anos na praia, que tinha alopecia e disse que nunca tinha saído sem peruca. Ela me encontrou e disse que me admirava muito por eu andar careca. Naquele momento eu entendi que não usar peruca é um posicionamento político, e daí eu entendi que o fato de eu existir careca no mundo é um posicionamento”, afirma. E completa: “Vão ter que me aceitar e aceitar as outras mulheres que vierem depois de mim, sabe? Porque para muitas mulheres é mais fácil sair na rua porque elas me viram”.

Além das Sereias Carecas, Lolla mantém junto com as suas outras duas colegas de casa o Casinha Lab. Lá, as três artistas também confeccionam acessórios de carnaval, brincos, e pretendem expandir para outros itens. Fora das artes, mas nem tanto, Lolla também é voluntária em uma ONG na Pavuna, na zona norte do Rio de Janeiro. Lá, trabalha a autoestima de crianças que, infelizmente, ainda se veem como inferiores em um mundo que afasta os “favelados”. Para ela, a questão de suporte na construção dessas identidades também é fundamental: “No início, toda vez que eles falavam algo autodepreciativo, a gente sentava e discutia sobre beleza, origem da beleza”.

Vão ter que me aceitar e aceitar as outras mulheres que vierem depois de mim.

Além das Sereias Carecas, Lolla mantém junto com as suas outras duas colegas de casa o Casinha Lab.

Avaliação de todo o trabalho que tem feito até agora? Extremamente positiva: “Eu nunca pensei que iria mudar a vida de ninguém. Mas aconteceu não só com a galera que tem alopecia. Essa coisa de contestar os padrões mexeu com todos os meus amigos”. Lolla também reconhece que o projeto e a troca com outras mulheres carecas influenciou sua própria vida. “Mudou muita coisa da minha percepção também. Isso para mim também foi importante, repensar o quanto a gente impõe, principalmente às outras mulheres, conceitos pré-estabelecidos de beleza, o quanto isso é desnecessário, aprisiona e machuca”, finaliza.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Lola Ferreira

Imagem: Valda Nogueira

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

O HuffPost Brasil lançou o projeto Todo Dia Delas para celebrar 365 mulheres durante o ano todo. Se você quiser compartilhar sua história com a gente, envie um e-mail para editor@huffpostbrasil.com com assunto “Todo Dia Delas” ou fale por inbox na nossa página no Facebook.

Todo Dia Delas: Uma parceria C&A, Oath Brasil, HuffPost Brasil, Elemidia e CUBOCC.


Fonte: brasilpost