Mamonas Assassinas ainda marcam o Oeste Paulista, 20 anos após tragédia

Adrielle Brito Cavalari se encontrou com Dinho, em 1996, em Dracena (Foto: Adrielle Brito Cavalari/Arquivo Pessoal)Adrielle Brito Cavalari se encontrou com Dinho, em 1996, em Dracena (Foto: Adrielle Brito Cavalari/Arquivo Pessoal)

A banda Mamonas Assassinas marcou uma época. Independentemente da idade, é difícil encontrar quem não tenha ouvido falar da irreverência do grupo musical. Donos de uma personalidade única, Alecsander Alves, o Dinho, Alberto Hinoto, Samuel Reoli, Sérgio Reoli e Júlio Rasec conquistaram fãs no Brasil todo em meados da década de 1990. A alegria e a espontaneidade eram marcas registradas em suas composições.

Adrielle acompanhou os passos de Dinho em Dracena (Foto: Adrielle Brito Cavalari/Arquivo Pessoal)Adrielle acompanhou os passos de Dinho em
Dracena
(Foto: Adrielle Brito Cavalari/Arquivo Pessoal)

A peruca loira fundida no vestido de renda revela a “musa” que Dinho incorporava durante as apresentações com a música “Robocop Gay”. A tão famosa Brasília amarela que andou o país conquistou ainda a admiração de crianças, jovens e adultos com a canção “Pelados em Santos”.

A frase “Atenção, creuzebeck, ao toque de quatro já vai” está tatuada no coração de milhares de brasileiros que ouviram e cantaram o enredo que representou toda uma geração.

Nesta quarta-feira (2), o acidente aéreo que matou todos os integrantes da banda completa 20 anos e o Oeste Paulista lembra episódios que também lhe fizeram marcar a história dos “mamonas”.

No dia 10 de janeiro de 1996, o grupo chegava a Dracena para apresentar um show na Fapidra, a Feira Agropecuária e Industrial da cidade. O objetivo era levantar fundos com parte da verba para construir a cobertura da quadra de uma escola no município.

Adrielle tinha nove anos quando se encontrou com o ídolo (Foto: Adrielle Brito Cavalari/Arquivo Pessoal)Adrielle tinha nove anos quando se encontrou com
o ídolo Dinho
(Foto: Adrielle Brito Cavalari/Arquivo Pessoal)

Tendo em vista a oportunidade de abrir o show dos Mamonas Assassinas, os integrantes da banda Antivírus, que eram alunos de uma escola na cidade, entraram em contato com os organizadores do evento.

De acordo com Rodrigo Miyagui, 38, que na época tinha 18 anos e integrava o conjunto, o único problema era que o empresário dos Mamonas não tinha conhecimento de que os alunos participariam no dia do evento. “Quando ele chegou e soube que subiríamos ao palco, não autorizou”, afirma.

Por outro lado, os jovens conheceram o guitarrista Alberto Hinoto, o Bento, como era chamado. Ainda segundo Miyagui, quando eles regulavam o som no período da tarde, chegou a van em que estavam o músico e um grupo de apoio para a montagem dos aparelhos. “Eu vi ali a mesma pessoa que se apresentava na TV. Ele era brincalhão e entendia muito de música. Minha juventude foi marcada por eles, eu só tenho a agradecer”, relata.

Adrielle acompanhou os passos de Dinho em Dracena (Foto: Adrielle Brito Cavalari/Arquivo Pessoal)Adrielle acompanhou os passos de Dinho em Dracena (Foto: Adrielle Brito Cavalari/Arquivo Pessoal)

‘Sentia meu coração sufocar de felicidade’
Há ainda quem teve a oportunidade de conhecer o grupo todo, mas principalmente um ídolo em especial, o vocalista Dinho. Aos nove anos na época, a dracenense Adrielle Brito Cavalari, 29, contou com a chance de ter acesso ao camarim e ficar frente a frente com os músicos. “Como eu era pequena, fui carregada nos braços de pessoas que estavam ali perto da entrada, até eu chegar dentro da sala onde eles estavam. Não sei até hoje quem me autorizou a entrar”, conta.

Adrielle diz que ao chegar à área onde os artistas estavam se deparou logo no primeiro momento com Dinho. A emoção era tanta que ela não conseguia parar de chorar. “Sentia meu coração sufocar de felicidade. Ele me fazia cócegas e me dizia: ‘Você é tão linda, não chora’. Foi inesquecível”, relata.

Dinho e a mãe, Célia Alves (Foto: Célia Alves/Arquivo Pessoal)Dinho e a mãe, Célia Alves (Foto: Célia Alves/Arquivo Pessoal)

‘Ele adorava crianças’
“Que um dia meu filho seria artista, eu já sabia”, afirma dona Célia Alves, 62, mãe de Dinho. De acordo com ela, o filho tinha, desde criança, o dom de encantar. “Ele foi criado na igreja e não era arteiro”, lembra.

Dinho foi homenageado com o título de Cidadão Dracenense (Foto: Célia Alves/Arquivo Pessoal)Dinho foi homenageado com o título de Cidadão
Emérito de Dracena
(Foto: Célia Alves/Arquivo Pessoal)

Dracenense de natureza e guarulhense de coração, Célia relata que o filho teve poucas oportunidades de ir a Dracena. “Ele nasceu em Irecê, na Bahia, mas com dois meses foi para Guarulhos [SP] e dali nunca saiu”, afirma.

No dia do show em Dracena, a mãe de Dinho esteve junto com a equipe e ficou hospedada no mesmo hotel em que a banda permaneceu.

“Fiquei feliz em ver meu filho se apresentar na cidade onde eu nasci. Ganhamos do prefeito na época um quadro e, além disso, Dinho recebeu um título de Cidadão Emérito de Dracena”, conta.

Aproveitando que estavam na cidade da Nova Alta Paulista, dona Célia propôs ao filho ir ao Rio Paraná, em Panorama, porém, um imprevisto aconteceu. “Os fãs descobriram que o Dinho estava lá, foi muita gente atrás dele, mas ele deu autógrafos para todos que pediram. Era muito humilde”, ressalta.

Dinho foi homenageado com o título de Cidadão Dracenense (Foto: Célia Alves/Arquivo Pessoal)Dinho foi homenageado com o título de Cidadão
Emérito de Dracena
(Foto: Célia Alves/Arquivo Pessoal)

Foram poucas as vezes em que o cantor visitou Dracena. A primeira vez em que foi ao município tinha apenas dois anos de idade. “Quando viajávamos para lá, ele gostava de ir à sorveteria e ao rio em Panorama”, relata a mãe.

Brincalhão, o garoto que sonhava em ser piloto de avião quando criança ganhou fama e se tornou um ídolo já adulto.

A descoberta do nascimento dos Mamonas Assassinas assustou dona Célia na época. “Lembro que cheguei da igreja e me deparei com o Dinho com uma peruca loira e um vestido cantando ‘Robocop Gay’. Foi engraçado”, recorda.

Depois de 20 anos, a mãe tenta imaginar como estaria o filho hoje.

Ela acha que Dinho não estaria mais na banda. “Acredito que seria casado e com filhos porque ele adorava crianças. Acho que ele continuaria no humor, porém, em um programa de TV talvez”, pensa (clique ao lado para ouvir a entrevista concedida ao G1 pela mãe do cantor Dinho).

A tragédia
Serra da Cantareira, cidade de São Paulo (SP), 2 de março de 1996. Estes são o local e a data que marcaram a tragédia aérea que vitimou os cinco integrantes da banda Mamonas Assassinas. O Brasil chorou com lágrimas de tristeza e saudade a morte do grupo musical que marcou uma época.

Dona Célia Alves fala que, quando ficou sabendo da queda do avião, esperava Dinho no aeroporto. “Quando uma mãe perde o filho, sente o mundo desabar na cabeça. Se não fosse Jesus Cristo na minha vida, eu teria morrido”, relata.

Rodrigo Miyagui teve contato com o guitarrista dos Mamonas Assassinas em Dracena (Foto: Rodrigo Miyagui/Cedida)Rodrigo Miyagui teve contato com o guitarrista dos Mamonas Assassinas em Dracena (Foto: Rodrigo Miyagui/Arquivo Pessoal)

‘Eu sempre vou me lembrar deles’
Na época com 18 anos, Rodrigo Miyagui diz que estava prestes a completar 19. A tragédia aconteceu na véspera do seu aniversário. “Eu sempre vou me lembrar deles. Passei meu dia lendo jornais e assistindo à televisão para acompanhar as notícias”, comenta Miyagui, que hoje mora em São Sebastião da Amoreira (PR), onde gerencia um restaurante.

Hoje o que resta é a saudade dos garotos que inovaram, cantaram e alegraram uma geração. A “Arlinda Mulher” ainda existe, a “Brasília amarela” corre o mundo, o “Sabão Crá Crá” continua comercializado e os Mamonas Assassinas estão vivos no coração dos fãs que ainda os acompanham.

(Com a colaboração de Gabriel Tibaldo, da TV Fronteira).

Integrantes da banda Mamonas Assassinas tinham a irreverência como marca registrada (Foto: Célia Alves/Arquivo Pessoal)Integrantes da banda Mamonas Assassinas tinham a irreverência como marca registrada (Foto: Célia Alves/Arquivo Pessoal)