Quando o autocuidado é estratégia de resistência feminista

“A revolução começa comigo, no interior.

É melhor reservarmos tempo para

tornar nossos interiores revolucionários,

nossas vidas revolucionárias, nossos

relacionamentos revolucionários.

A boca não vence a guerra.”

(Toni Cadê Bambara, Seeds of a Revolution: a collection of Axioma, passages and proverbs).

Estamos cansadas. Os últimos anos têm sido especialmente exaustivos para as mulheres sistemicamente, no Brasil e no mundo. Nunca pareceu tão urgente falar de autocuidado como parece agora.

E podemos observar que, quanto mais cresceu a turbulência política, cresceu também o interesse em autocuidado. A busca pelo termo no Google alcançou a maior alta em 5 anos nos Estados Unidos, um pouco antes das eleições de Donald Trump, no fim de 2016. O mesmo aconteceu no Brasil após a eleição de Jair Bolsonaro: o maior pico de busca pelo termo acontece exatamente agora, no período em que estamos.

Ao mesmo tempo em que ativistas e militantes resgataram o termo criado por Audre Lordeescritora, negra, lésbica e ativista — em 1988, aconteceu o que sempre acontece quando um assunto vai para os trending topics do Twitter: cooptação.

“Me tornei uma ‘antropologista-voyer’ das mostras de #autocuidado em novembro de 2016, depois que vi uma foto no Instagram de uma mulher ruiva esfregando um pedaço de papaia na cara. ‘Estou obcecada por esse produto de beleza natural’, ela escreveu na legenda. ‘Eu esfrego a pele do meu rosto toda manhã e tenho notado uma GRANDE melhora na minha aparência. #SELFCARE’, finalizou. Há 1.6 milhões de imagens com essa hashtag no Instagram e mais milhões no Twitter e Tumblr, a maioria delas postadas em 2016″, escreveu Jordan Kisner, colunista da revista The New Yorker, em artigo sobre o assunto.

Hoje, são mais de 10 milhões de tags para #selfcare no Instagram.

O termo tomou conta das redes e da grande mídia, muitas vezes utilizado por marcas em estratégias de marketing e vendas. Por uma busca na internet, autocuidado hoje é um conceito superficial. Nada e tudo, ao mesmo tempo. Esse artigo é, então, para relembrarmos o que é mesmo autocuidado para as mulheres.

1. Não é autoindulgência, é cuidado genuíno

Rodelas de pepinos nos olhos, longos banhos de espuma e uma máscara de hidratante na cara. Essas não são as melhores representações de autocuidado.

Embora autocuidado possa sim se relacionar a alguma dessas imagens, o termo tem um sentido muito mais profundo, principalmente para as mulheres. Não é sobre se satisfazer momentaneamente, mas se conhecer e se oferecer o que se precisa algo que traga benefício a médio ou longo prazo.

O ato em si não importa tanto, mas sim o que está por detrás dele, a intenção. Um prato de comida saudável, por exemplo, pode ser um cuidado consigo, com a saúde, ou sinônimo de uma vida de dietas e prisões estéticas, ortorexias e distúrbios.

Essa cooptação que o termo autocuidado sofre traz traços importantes da cultura patriarcal em que vivemos, a mesma que sequestra falas socialmente importantes e as utiliza numa lógica típica do sistema, a do status quo que impera, do establishment branco, masculino e elitizado que não busca, de verdade, por mudanças estruturais.

Autocuidado aparece, inúmeras vezes, conectado a imagens de mulheres cuidando da aparência, da estética, da beleza e do corpo, com atos que podem ser facilmente entendidos como superficiais e fúteis. Traz junto, também, uma tradução apolítica e excludente da palavra: a ideia de autocuidado difundida hoje está a milhas de distância do contexto feminista, de luta por direitos civis, em que nasceu há 20 anos, excluindo mulheres negras e periféricas tais quais a própria mãe do termo, Audre Lorde.

2. Não é superficial, bonito ou fácil

“Drenada emocionalmente? Limpe seus cristais para ajudar a recuperar a sua energia.”

“A vida te ofereceu limões? Faça uma limonada.”

“Com essa agenda, você vai conseguir cuidar melhor de você e das suas tarefas diárias.”

As fotos de mulheres perfeitamente dentro dos padrões em sirshasana (posição de yoga invertida sobre a cabeça) ou lendo livros bonitos com uma xícara de chá ao lado fazem parecer que é simples, mas não é.

Autocuidado é um processo, um aprendizado de vida para as mulheres.

O mundo não nos ensina a cuidar de nós mesmas em um sentido profundo que pouco tem a ver com ir ao salão de beleza e se depilar de 15 em 15 dias. Aprendemos a cuidar dos outros, dos maridos, dos filhos, da casa, das coisas ao redor. Aprendemos também esse “cuidado” que o patriarcado nos oferece: cuidar de si para agradar aos outros, para estar agradável ao paladar alheio. E isso pouco tem de cuidado de verdade.

Autocuidado, para as mulheres, tem a ver com se oferecer o que se necessita, buscar ajuda, redes de apoio, e também estabelecer limites, contornos. Saber dizer não em contextos de opressão, por exemplo, é um grande ato de autocuidado que não aparece nas fotos ou nas tags do Instagram. Porque não é bonito, palatável, nem vende produto algum — pelo contrário, assusta.

3. Não é (mais uma) responsabilidade das mulheres

“Nossa cultura atual de autocuidado coloca a pressão nas mulheres, para que “recolham os cacos” tratando bem de si mesmas. Mas cuidar de si pode não ser algo fácil por muitas de nós que passaram por traumas, ansiedade, depressão. Para muitas mulheres, ter uma atitude de resistência simplesmente não combina só com a ideia de se mimar todos os dias”, disse Adebe Derango-Adem em artigo para a Flare.

A auto-responsabilidade e a culpa surgem novamente através da representação de autocuidado que vemos por aí, numa confusão absoluta do termo. Cuidar de si não é uma responsabilidade das mulheres.

A lógica é outra: de aprender, aos poucos e com a ajuda de outras, a se amar e ser compassiva consigo, se fazer bem e exigir que aqueles ao redor também façam mesmo quando a cultura reforça o contrário.

4. O significado por detrás da frase famosa de Audre Lorde

Audre Lorde, poeta feminista e ativista dos direitos civis: "Mulheres são poderosas e perigosas".

“Autocuidado não é auto-indulgência. É autopreservação. E esse é um ato de bem-estar político.” — Audre Lorde disse essa frase no epílogo de A Burst of Light (Uma explosão de luz, em tradução livre), e, depois disso, a frase foi reproduzida centenas e centenas de vezes. Mas o que ela realmente significa?

“Algumas de nós, diz Audre Lorde, não foram feitas para sobreviver. Ter determinado corpo, ser membro de determinado grupo, ser “determinada”, pode ser uma sentença de morte. Quando você não deveria sobreviver como você é, onde você está, com quem você está, então sobreviver é um ato radical, uma recusa a deixar de existir, existir até o fim. (…). Nós temos que descobrir como sobreviver em um sistema que decide que a vida, para algumas, exige a morte ou exclusão de outras. Muitas vezes: sobreviver em um sistema é sobreviver ao sistema. Temos que ser criativas — sugere Audre Lorde, para sobreviver. Algumas de nós. Outras, nem tanto”, disse Sara Ahmed em texto no blog feministkilljoys.

Por uma perspectiva política e interseccional, quanto mais excluída do sistema é uma mulher, mais o autocuidado se torna um ato de resistência. Quando todo o aparato social está organizado para te oferecer bem-estar — educação, saúde, segurança — você não precisa se tornar criativa para sobreviver.

É essa visão, política e interseccional, que o termo autocuidado merece. É nesse bojo que ele nasceu.

Caso contrário, estaremos fazendo mais do mesmo: rebuscando padrões antigos de opressão, atropelando e excluindo algumas a fim de contemplar outras.

5. Para mergulhar no tema, se junte a outras mulheres

A Comum, plataforma de desenvolvimento humano para mulheres, lançou um especial de autocuidado com esse olhar: amplo, para além das receitas prontas.

O conceito é explorado através de textos, práticas, encontros online e vídeos de histórias de quatro mulheres diversas, que percorreram caminhos tortuosos até encontrarem meios de cuidar de si mesmas. Giovana Camargo, Gabrielle Estevans, Aline Ramos e Priscila Barbosa contam, respectivamente, suas jornadas com o corpo em um contexto de obesidade, a mente em um contexto de depressão, relações em meio a traumas e trabalho em uma vida de fadiga e estresse.

A plataforma funciona por assinatura mensal, e tem a opção de uma mulher financiar a assinatura de outra. Também, aceitam pedidos e histórias de mulheres que queiram participar oferecendo outros valores mensais ou trocas. O importante é que o conteúdo fique acessível.

Seguimos juntas, em uma jornada de autocuidado que é mais antiga que nós, e que deve durar enquanto durar a sociedade patriarcal em que vivemos. Resistência, sempre.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.


Fonte: brasilpost